Set Adrift e a guitarra que não faz falta

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Hernan Borges (baixo) e Johnny (bateria) são amigos e parceiros nas experimentações musicais (Foto: Cesinha Marin)

Quando foi a última vez que você ouviu rock feito sem guitarras? Não tem muito disso por aí, mas geralmente, quando acontece, o resultado é especial. O mesmo acontece em Set Adrift, EP de estreia dos curitibanos da Giant Gutter from Outer Space, lançado em janeiro de 2016 pela Sinewave Label. São cinco faixas instrumentais que mostram a versatilidade dos músicos em criar composições dinâmicas e experimentais.

Se você assistiu ao Royal Blood, no Rock In Rio, pode estar pensando que tem algo a ver, mas não é bem por aí: o trabalho dos brasileiros é muito menos estruturado. A musicalidade é baseada no noise e no post rock, gêneros fortemente marcados pelo experimentalismo.

O estilo de Hernan Borges lembra, em alguns momentos, as icônicas (e complexas) linhas de baixo do Primus e Tool, enquanto a poética remete ao Swans: o contraste entre o belo, representado por composições agradáveis de ouvir, e o grotesco, que aparece na forma da (proposital) confusão de elementos. Referências mais pesadas também estão lá, já que a ideia central por trás do álbum parece ser o peso.

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Capa do EP. A arte é do fotógrafo e designer Cesinha Marin

Geralmente, a música instrumental como um todo é mais subjetiva – não tem ninguém cantando nada, então não há uma mensagem exatamente sólida sendo passada. Minha impressão de Set Adrift é de que, na verdade, por meio dos graves do baixo e das mãos pesadas e raivosas de Johnny Rosa nas baquetas, existe alguém amargurado e sem esperanças buscando sentido em algo.

Isto é evidenciado pelos próprios músicos nas descrições das faixas no BandCamp, com frases como “as vozes absorvidas não ajudam a preencher os espaços desta eterna profanação noturna” (em sehnsucht). A faixa anterior, in spite of all, contém o trecho there is no lack of void (não há falta de vazio, em tradução livre). A frase é retirada da peça Esperando Godot, do escritor e dramaturgo irlandês Samuel Beckett. Toda a ‘poesia’ do disco, aliás, parece se encontrar com a literatura do autor.

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Jorge Petraglia, Roberto Villanueva e Leal Rey interpretam Esperando Godot, em Buenos Aires, 1956 (Foto: Revista Teatro)

As músicas são curtas (média de 4 minutos), mas empregam variações a todo instante, guiadas por um baixo que alterna ritmos, slaps e riffs com precisão e rapidez, acompanhado por uma bateria quebrada que também consegue se destacar. É longo o suficiente para apresentar a proposta dos dois e termina antes que as músicas se tornem enjoativas.

Não é recomendável deixar Set Adrift tocando enquanto procura receitas de bolo na internet. É um EP complexo como deve ser o metal avant-garde. Convém ouvir atentamente, principalmente nas primeiras vezes, para captar as camadas e os detalhes que tornam a obra rica e diferenciada. Bateria e baixo, instrumentos normalmente vistos como “acompanhantes” das vozes e guitarras, assumem protagonismo e disputam espaço durante os vinte minutos de execução.

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Estética preta e branca da banda faz parte também da identidade sonora (Foto: Divulgação/Facebook)

Por ser assim denso e alternativo, você com certeza não vai ouvir na rádio e talvez o seu colega da firma também não te apresente ao som dos amigos e parceiros musicais Hernan e Johnny. Mas vale a pena buscar essa viagem por si só. Set Adrift é um EP que provavelmente vai te surpreender logo nas primeiras escutadas: se já for adepto de sons experimentais, pela habilidade dos músicos. Se não for, pela quantidade de informação que a música carrega.

Em mídia física, Set Adrift tem tiragem limitada a 300 cópias numeradas e custa R$15. Mais informações no Facebook da banda. Os arquivos estão disponíveis para compra e download no BandCamp. Também na Sinewave.

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