Delta blues e fuzz se encontram em Mara

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Amizade de Luke Marsh e Edward Noble é visível a cada música (Foto: Reprodução/Filthy Lucre)

Mara, disco de estreia dos australianos do Filthy Lucre é um álbum para se ouvir de pé – ou, pelo menos, batendo o pézinho. Apesar de polida, a produção preserva um quê do clima de garagem do duo, e o fuzz da guitarra se mistura ao blues clássico de maneira enérgica e dançante. As músicas são construídas através dos riffs agitados e do ritmo bem definido da bateria. Mas, a mais notável qualidade é a química entre o guitarrista e vocalista Luke Marsh e o baterista Edward Noble.

Após EPs gravados no porão de casa e apresentações ao lado de nomes como Truckfighters, os dois viajaram até os Estados Unidos para gravar as quatorze faixas, em um estúdio cercado por bosques e montanhas. A produção é de Sylvia Massy, que já assinou discos de Johnny Cash, Tool, System of a Down e por aí vai. Mesmo com tanto renome, ainda se deixa soar o chiado das guitarras. O resultado saiu em 30 de janeiro, com o nítido equilíbrio entre capricho na produção e timbres orgânicos.

Filthy Lucre absorveu elementos tipicamente estadunidenses, marcantes do delta blues, um dos estilos de blues mais clássicos. Dá até pra dizer que o álbum tem duas estéticas distintas, mas interligadas ao longo do play: o desert rock quase puro, pra balançar a cabeça, com riffs tocados a todo volume é o que dá cara à Mara; mas estruturas de blues, cadenciadas e mais intimistas também estão presentes o tempo todo.

Começa numa pancada, com Dover Street, World Corp e Devil Man. Hand Made – single lançado em 2014 e regravado em duas faixas para Mara – é a primeira quebra. É melódica, e faz uso da característica slide guitar dos blueseiros da década de 50. Broke Bottle Blues segue ao mesmo estilo.

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Arte da capa lembra muito os aborígenes (Arte: Muhamad Lukmanul Hakim)

A primeira grande quebra é Mara, faixa-título instrumental. Edward Noble larga as baquetas para fazer uma percussão mais tribal, assim como fazem as cordas da canção. Mara reforça as raízes australianas da dupla, que usa até o didjeridu, instrumento típico dos aborígenes do país. A arte do álbum parece evocar traços desta cultura também.

Depois, temos a política Boundless Plains, que fala da hipocrisia do governo australiano (mas se aplica a vários outros, convenhamos). O disco segue nesta mesma pegada até seu final, gradualmente diminuindo o ritmo sem perder a força. Os riffs com fuzz permanecem até o final, em estruturas agora mais lentas. A voz, que antes era enérgica, também torna-se mais introspectiva, sem perder a já mencionada sintonia com o restante do instrumental.

Mara está disponível para stream gratuito no BandCamp. A versão digital do álbum pode ser adquirida por AUD$15, e a versão física, em CD, por AUD$20. A demo e o EP do Filthy Lucre também estão disponíveis.

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