Literatura, filosofia e stoner doom em debut do Ruínas de Sade

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Esse menino aí no baixo é o Paulo (Foto: Papoula Aniello)

Ao chegar, sou recepcionado por dois simpáticos cachorros cujos nomes eu esqueci de perguntar. No segundo andar, Paulo Vitor Machado, baixista da banda Ruínas de Sade, acena pra mim enquanto acende (mais) um cigarro. Naquela mesma tarde ele terminou o terceiro maço da semana. Dias atrás, enquanto ainda fumava o primeiro ou segundo, sua banda lançou o disco de estreia.

Enquanto ouvíamos God is Dead, descobri que A noite dos Mortos-Vivos virou domínio público por causa de um erro do distribuidor. “É, mano, sei lá. O estagiário esqueceu de registrar, fez errado ou sei lá… Então usamos pra fazer nosso primeiro clipe”, me conta ele, entusiasmado com a produção visual do disco.

A arte foi feita por Ars Moriendee, artista mineiro conhecido nessa cena underground aí. “A capa resume o que é o disco”, completa Paulo, se referindo ao sol, ao polvo e aos marinheiros morrendo. “Deixei o cara fazer tudo o que ele quisesse, desde que tivesse esses elementos que falei. Ele gostou tanto de fazer que a contracapa saiu quase de graça pra gente”.

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Arte: Ars Moriendee

E enquanto ouvíamos Funeralopolis, descobri que uma das causas de o rapaz fazer doom é justamente o Electric Wizard. As três faixas do CD fazem referência aos timbres graves, presentes tanto nos instrumentos quanto na própria forma de cantar. “Aqui na região tem gente que acha muito lerdo, ou muito pesado, mas é isso aí”, diz. A Ruínas de Sade é a única banda que faz som arrastado em Brusque, pequena cidade do Vale do Itajaí, em Santa Catarina.

Além do Paulo, a Ruínas de Sade é Hugo Grubert (vocal), Vitor “Bob” Zen (guitarra) e Carlos “Molly” (bateria). No CD, a percussão foi gravada por Gustavo Gamba. Além de tocarem juntos, todos são amigos, o que dá liberdade de chamar o outro de gordo em um áudio invertido, no meio de Divindade Abissal. Cês pensaram que era cabreiro, hein?

Na primeira vez em que efetivamente mexi o rabo da cadeira para produzir conteúdo para o blog, conversamos sobre várias coisas envolvendo a produção do disco, literatura, filosofia etc, enquanto eramos observados pelos quatro Beatles, espalhados em todos os cantos do quarto nas formas de pôsteres, quadros, relógios, CDs, e por aí vai.

WoY: Então, pra começar, comente um pouco sobre o processo de produção e gravação desse primeiro disco de vocês.

Paulo Vitor Machado: O nosso disco tem umas paradas bem ocultas… Tipo umas guitarras que só tem na faixa de vocal, dependendo do som tu não vai conseguir ouvir muito bem. Gravamos tudo em casa, aqui em Brusque. Investimos mais na mixagem e masterização mesmo. Gravamos tudo com equipamentos digitais, mas quisemos manter o mais orgânico possível, enfatizamos isso na mix.

O próximo queremos gravar em live. Queremos sair experimentando, se não for bom não fazemos mais, se for a gente continua fazendo. Nesse disco, por exemplo, toda música tem uma guitarra semi-acústica, e também tem uma Tonante. A Tonante é uma guitarra mó bosta, mas tem uma captação da Fender, então usamos pra ver o que dá. 

WoY: Qual é o processo de composição?

PVM: Por incrível que pareça, a gente não faz em jam, pouca coisa sai desse jeito. Trabalhamos riff por riff. Trazemos algo pronto e depois trabalhamos juntos, cada um dando ideia e escrevendo também. Se o Vitor não estivesse na banda, as músicas não sairiam desse jeito, se eu não estivesse, também não, e assim por diante. Cada um é uma engrenagem.

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Após mudanças de estilo e formação, Ruínas de Sade se encontrou no stoner doom (Foto: João Schaefer)

WoY: Como a sonoridade da banda evoluiu até ser o que é hoje?

PVM: Eu vi um show do Queens of the Stone Age em 2014 e pirei. É bem mais pesado ao vivo que em estúdio. Depois acabei ouvindo muito Stoned Jesus, fiquei dois meses ouvindo só isso e tal. Queria pegar as nossas músicas, na época progressivas, e transformar em algo mais pesado. Mas foi totalmente de feeling, saca? Falei pro Gamba, nosso ex-baterista, que achava que podíamos colocar mais peso… Foi fluindo, fomos mudando de afinação, comprei um muff pro baixo, outras distorções. Foi acontecendo naturalmente. Nunca quisemos soar como o Sleep, como o Electric Wizard ou etc. As referências existem, mas tocamos com a nossa própria pegada.

WoY: Falando de influências: eu curto bastante o Lovecraft e acho que a presença da obra dele é bem forte no som de vocês, não?

PVM: Sim, cara, pode crer, nosso vocalista gosta bastante. Ele tem aquele livro com todos os contos e tal. Divindade Abissal é uma música que tem bastante do Lovecraft. Aos poucos fomos criando esse conceito pra banda, de falar mais de literatura também . E de história, que é a formação do Hugo, o vocalista. 

WoY: Como esse conhecimento do Hugo influencia as temáticas?

PVM: Ele é o letrista, então ele coloca esses conhecimentos ali. Tem cultura pop também, como zumbis em Funeral do Sol… Já Divindade Abissal, por exemplo, é sobre os grandes exploradores nos Séculos XV e XVI, sobre ir aos mares e encontrar monstros. Se pegar os mapas tinham as criaturas lá desenhadas. No CD acabou virando o Cthulhu. O Hugo geralmente escreve as letras e mostra pra nós, e trocamos uma ideia. Eu geralmente curto…

WoY: As letras de vocês falam sobre coisas negativas, então, ou pessimistas?

PVM: Não, nem negativas e nem pessimistas. Cara, o vocalista e eu seguimos muito uma filosofia nietzschiana, sabe? Tu dizer um “sim” pra vida, tipo, crítica ao pessimismo, ao niilismo. A gente vê mais como trágico, e não pessimista. Trágico à lá Grécia Antiga.

WoY: Qual era a do Nietzsche? Não manjo muito da obra dele.

PVM: Muita gente fala que Nietzsche era pessimista. Isso é um erro absurdo. Nos dois ou três primeiros livros ele seguia o pessimismo do Schopenhauer e o romance do Wagner. A partir do quarto livro ele rompeu com essas escolas, passou a criticá-las. Talvez ele tenha sido niilista nesse curto período de tempo, mas as obras clássicas não foram escritas nesse período dele. Foram escritas no período dionisíaco, o “sim à vida”. A gente gosta bastante dele, o Hugo e eu. Lendo Nietzsche o cara dá até umas risadas. Acho que foi o Deleuze que disse que “se você não riu com Nietzsche é porque não entendeu”.

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“Não há fatos, apenas interpretações” (Arte: sheralynnveronicaeve)
WoY: E o nome Ruínas de Sade tem relação com essas filosofias?

PVM: Sim. O nome é por causa do Marquês de Sade mesmo. Ele tinha essa filosofia do prazer que falei antes, não tão moralista, entendes? Antes a gente tinha outro nome, tocavamos rock progressivo, mas já com alguma influência do grunge. Nos chamávamos Epitáfio da Lua, porque era um nome que remetia ao rock progressivo.

WoY: Até lembra um pouco do King Crimson

PVM: Pois é, Epitaph, e tem o Dark Side of the Moon do Pink Floyd também, mas não foi proposital. Estávamos migrando pra outra musicalidade, então falei pra mudarmos o nome. Ficamos bolando nome e pensando, nada saía… Aí apareceu Ruínas. Pô, é uma palavra massa. Na época eu vi aquele filme Saló, ou os 120 dias de Sodoma, do Pier Paolo Pasolini. Ele foi considerado o diretor oficial da igreja católica nos anos 60 e fez esse filme que todo mundo odiou. Conta história de quatro líderes fascistas que pegam jovens pra satisfazer os desejos deles. E isso é baseado em um conto do Marquês de Sade. Fui pesquisar vi que e o Sade se fodeu muito. Ele era meio maluco, fazia umas merdas, mas não algo que fosse visto como um crime, mais como prazer… Ele não estuprava, nem matava ninguém, por exemplo.

WoY: Tanto ele quanto o diretor devem ter se fudido muito, né.

PVM: Sim, o diretor era marxista e homossexual na Itália fascista. Ele foi encontrado morto com a cara toda furada. Não sei se é verdade, parece meio conspiratório, mas sei lá. No filme tem líderes fascistas representando nobreza, poder judiciário, poder executivo e igreja… Aí tem o ciclo das manias, em que eles satisfaziam os desejos sexuais, o ciclo das fezes, que o nome já entrega, e o ciclo do sangue, em que eles puniam os jovens.

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Pier Paolo Pasolini foi autor de uma das adaptações mais gores dos anos 70 (Foto: Ansa)

WoY: É quase um filme da UDR.

PVM: Sim, por aí. Eu tava nessa pilha de filme trash e pesado. Escolhemos esse nome de Ruínas de Sade e acabou ficando. A banda tava com a antiga formação ainda, era instrumental. Nessa época entrou o Hugo, que era vocal em uma banda cover do Black Sabbath. Depois houve outras mudanças também, na bateria, e chegou o Vitor pra guitarra.

WoY: Como aconteceram essas mudanças de integrantes?

PVM: Nosso primeiro baterista, o Yuri, tocava em outra banda também, As Palavras Queimam, de rap metal. Chamamos ele pra conversar, estávamos precisando de outra pegada na bateria, e além disso a gente tinha planos sérios com a banda. Pra não acontecer de ele ter que escolher uma banda ou outra, a gente acabou entrando num consenso e ele saiu. Foi definido que o Gustavo, nosso guitarrista, ia assumir a bateria. Aí a gente ficou sem guitarrista… Eu tava cabreiro, até pensando em acabar a banda, nem gravar, porque tava sem guita. O Gustavo recomendou o Vitor, amigo nosso também, que era um guitarrista tão bom quanto ele. Topou e aí fomos pro estúdio nessa formação.

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Formação que atuou na gravação do disco (Foto: Papoula Aniello)

WoY: Pra fechar: quais são os planos futuros?

PVM:  Agora estamos escrevendo em inglês. Temos uma letra em árabe e queremos escrever um doom em latim. O hugo é historiador, então manja disso. A última letra dele foi sobre a inquisição, sobre aquilo de achar que as mulheres eram bruxas e tal, uma merda.

Estamos com parcerias com bandas, queremos dar vários rolês pelo país. Talvez saia um split nesse ano, ou um single, talvez um EP… Vamos deixar as coisas fluírem. Estamos atrás de um selo pra lançar o nosso debut e ano que vem pretendemos tocar fora do Brasil. Fiquem ligados para mais novidades, e aguardem anúncios pra julho! Obrigado aí à galera que anda ouvindo nossa banda. Valeu mesmo!

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