Cerrado pesado com estreia do A B I S M O

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É o abismo mesmo desenhado aí na capa (Arte por: Júlio Lapagesse, Luiz Poletto e Abismo. Logotipo por Bianca Ardanuy)

O cerrado tá bem pesado. Desta vez não é Goiás, e sim Brasília. Algumas semanas atrás nasceu o A B I S M O, composto por integrantes de outras bandas da capital brasileira. all beyond perception trata de temas reais e oníricos sob a ótica de se estar na beira. Faz isso através da união dos anos 70 com elementos sonoros de décadas posteriores, fugindo das referências já clássicas (pra não falar manjadas) do stoner/doom/sludge/etc.

Algumas das temáticas das letras são reflexões sobre a vida, aparentemente com fortes sentidos espirituais. A descrição do disco no Bandcamp parece fazer referência à No Limiar do Abismo, livro espírita escrito por um médium e um espírito. Não tenho muito conhecimento sobre esses temas, mas o livro propõe uma reflexão sobre a vida e a morte, as trevas exteriores e ausência de luz no Ser. Mas Limiar do Abismo também é uma dungeon do Diablo e Fernando Pessoa faz menções ao Limiar e ao Abismo em alguns poemas, então sei lá.

A musicalidade é menos abstrata do que essas temáticas e possíveis referências que deram  origem à formatação do disco. Referências de música pesada dos anos 70 estão por toda a parte (oi, Black Sabbath), como mencionamos antes, mas o interessante do disco é justamente esse tipo de som trabalhando junto com canções mais rápidas e de estrutura diferente. Como os rapazes mesmos dizem, tem bastante post punk e proto no meio.

Protofuture – reflexão sobre a vida, hiper-realidade, simulacros etc – e The Edge – o limiar, de fato – são mais voltadas à obscuridade setentista e arrastada. Beyond the Red e o interlúdio Mirage vão numa pegada completamente oposta, mais rápida e post punk.

“Quem está no limiar só saberá que está no limiar quando colocar um pé pra fora, no abismo”

A mesma quebra de dinâmica ocorre em The Right to be Forgotten/Exiled in Itself, que toma emprestados timbres sujos para o ritmo mais rápido do stoner /desert. A sétima faixa volta a experimentar com outros gêneros, conectados entre si apenas pela sujeira. A própria capa acompanha mais post punk do que qualquer outra coisa. É mais minimalista e abstrata, mais perto do Sonic Youth do que de todos os bodes e bongs do stoner/doom.

O único vacilo que eu vejo está na produção do trampo, no sentido de gravação e mix. É mais uma área que eu não domino e por isso não gosto de dar pitaco, mas fiquei bastante incomodado com algumas músicas, por ter a nítida sensação de que alguns instrumentos não têm o espaço devido. Uma guitarra mais alta, umas percussão fazendo muito barulho, essas coisas. The Edge, segunda faixa, me causou um desconforto por causa disso, mas não sei explicar direito o que é.

Opiniões pessoais e preciosismos à parte: altamente recomendado e dá provas de originalidade que ainda darão bons frutos. all beyond perception é o primeiro trampo da banda, formada oficialmente em abril mesmo, embora as gravações tenham sido feitas em 2015, no CL Áudio. A B I S M O é formada por Poney (guitarra e voz, também membro da Violator, diga-se de passagem), Stefano (guitarra),  Pícaro (baixo) e Poletto (bateria). Produção e mixagem foram feitas por Pedro Carvalho.

all beyond perception está disponível para stream no Bandcamp. Você pode pagar o que quiser pelo álbum.

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