Psicodelia à japonesa nas ruas de Curitiba

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Jucksch e Murakami, em clipe de ‘Domes’ (Foto: Natasha Durski)

Da Zai lançou o disco que eu mais gostei de ouvir nesse ano até o momento. Bateu o Conan. São incontáveis referências à arte do Japão, feitas por quem conhece a cultura além da superficialidade. Sem animes, sem salarymen e muito além de programas de auditório malucos. Após dois anos de produção, o prog saiu em Shogyoumujou, em 27 de maro. Entendo pouco de rock progressivo, portanto este post possivelmente será mais informativo, no sentido de organizar fontes de inspiração da banda e apresentar parte do maravilhoso mundo da psicodelia japonesa, caso você ainda não a conheça.

Da Zai é formada pro Andras Jucksch (baixo, teclas e vocais) e Tatsuro Murakami (guitarras, backing vocal). Para além disso, há participações de Pietro Putinatti (bateria), Marc Olaf Thiessen (flauta), Samuel Jalowyj (trompete) e Anna Ellendersen (vocais). Leonardo Mezzomo, Thiago Machosky e Guigo Berger fizeram a mix, e João Caserta foi responsável pela masterização.

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Literatura japonesa e sensação de repúdio à humanidade (cortesia de Osamu Dazai) foram essenciais para moldar as canções (Foto: Natasha Durski)

No nome da banda soa pela primeira vez o ~sino de coisa do Japão~. Osamu Dazai é um dos maiores homens da literatura nipônica do Século XX. Foi um dos expoentes do watakushi shoetsu, estilo de narrativa de romance em primeira pessoa. Foi um cara meio triste e cometeu suicídio afogando-se nas águas de um rio, junto da esposa. Guarde o nome dele porque uma de suas obras aparecerá nos parágrafos abaixo.

Shogyoumujou é um conceito presente no cotidiano japonês, vindo do budismo. A frase milenar se traduz como a “impermanência de todas as coisas”, referindo-se às coisas do mundo material. O site em língua espanhola Kirai Net, voltado à cultura japonesa, explica que, em geral, não há grande preocupações com o futuro distante por lá, focando-se mais no presente e no futuro próximo.

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Capa do disco é ilustração em estilo tradicional (Arte por: Katsushika Hokusai, 1760-1849

Essa inconstância foi absorvida pela musicalidade contida álbum. As faixas transitam pela milenaridade (existe isso?) japonesa, pelo prog setentista e por influências psicodélicas mais modernas. O resultado é um disco que não se atém a nenhum desses períodos. A mix foge do padrão de timbres sujos e arrastados dos anos 70, optando por uma produção bem polida e que mantém-se orgânica o tempo inteiro.

Ao contrário da maior parte dos outros textos desse blog, este não terá o adjetivo “pesado, agressivo, violento”, nem nada do tipo. As músicas são bonitas, até delicadas de certo modo. O som é rápido em dados momentos, mas dialoga com temáticas onde não convém esse tipo de explosão instrumental. Em Yozo’s Burden e No Longer Human, por exemplo, a viagem existe por si só: não é preciso fazer nada além de sentar com os fones de ouvidos pra ir para outro lugar. A última faz claríssima menção à Indigno de ser humano, ou simplesmente Não Humano (1948), principal obra de Osamu Dazai.

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Estética bem definida do grupo é um bônus de qualidade (Foto: Natasha Durski)

As flautas e as teclas criam a ambiência necessária para a base mais corrida de baixo e guitarra. Esse lead instrumental lembra bastante as jams. É o que vejo de maneira mais nítida em Gion Monastery, mas presente nas outras cinco faixas também.

Improviso e experimentação foram pilares fundamentais na cena psicodélica dos anos 60 e 70. A música americana chegou ao Japão depois da Segunda Guerra Mundial, grande parte por conta das rádios das bases americanas no Oriente. Não demorou para que influências quadradas fossem abolidas e surgissem grandes bandas de space rock. Começou com o The Mops, que lançaram o primeiro disco de rock psicodélico do país, em 1968. Depois, vieram o Taj Mahal Travellers, Hadaka no Reallizes, Flower Travellin’ band, citando apenas os mais famosos. Este foi o embrião da também rica cena de noise music, décadas à frente. A proeminência durou até os anos 80, quando o punk rock tornou-se a nova febre e o rock progressivo/psicodélico virou ‘música cult’.

Da Zai faz o resgate de uma cena questionavelmente desconhecida junto de referências ocidentais do prog para entregar um álbum com muita alma e identidade. Além de ser uma porta para um Oriente sem estereótipos, tem seu quê de épico sem se render à farofice e ao virtuosismo desnecessário. E ter conhecimento das referências de arte japonesa presentes em Shogyoumujou torna a experiência de ouvir o disco ainda mais única.

Shogyoumujou está disponível para stream e compra no Bandcamp. Você pode ouvir inteiro no Youtube também. Ainda serão feitas cópias físicas do disco. Para mais informações, basta entrar em contato com a banda no Facebook.

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